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Trajetória preocupante
Uma discussão que parecia inimaginável até pouco tempo atrás está, agora, à mesa: o que pode acontecer se os Estados Unidos, a maior economia do mundo, não controlarem a sua dívida?
A trajetória das contas públicas é motivo de apreensão. Nos próximos cinco anos, a dívida americana deve saltar para 137% do PIB, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 2019, essa relação estava em 108%.
Gráfico em linha que mostra a trajetória da dívida em diversos países (Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido) entre 2012 e 2021 e com projeções entre 2022 e 2028. A fonte é o Fundo Monetário Internacional.
Os dados do FMI mostram os EUA na contramão das economias europeias, que devem estabilizar ou até diminuir seu endividamento após o fim da pandemia de covid-19.
O aumento de gastos para prover apoio à população durante a emergência sanitária, embora perfeitamente justificável, foi uma das razões para a explosão da dívida americana. O governo do país distribuiu mais de 5 trilhões de dólares para amenizar os impactos da pandemia – cerca de 150 milhões de famílias foram beneficiadas pelo auxílio financeiro.
O desafio para os próximos anos é “desarmar a bomba fiscal” e colocar o orçamento sob controle novamente, para que a dívida não aumente. Essa questão se torna ainda mais urgente diante das taxas de juros mais elevadas no país, que ampliam o endividamento.
Mas, infelizmente, a estabilização ou redução da dívida não está no horizonte. Dados do Escritório do Orçamento do Congresso dos Estados Unidos (CBO, na sigla em inglês) mostram que dois pontos essenciais para esse controle não devem ocorrer. São eles:
•
Melhora do déficit primário: os EUA devem seguir registrando déficit primário (quando as receitas não são suficientes para cobrir as despesas, excluindo o pagamento de juros) até, pelo menos, 2034. O déficit, que está em 6% do PIB, deve permanecer nesse patamar. A percepção no mundo político é que, seja qual for o vencedor das eleições presidenciais deste ano, o problema não deve ser remediado. Propostas de aumento de gastos e de cortes de impostos aprovadas nas últimas décadas dificilmente serão revertidas nos próximos anos, dada a divisão no Congresso.
•
Redução do custo da dívida: os juros básicos americanos, que orientam o custo da dívida pública, estão no maior patamar em mais de 20 anos. Com uma dívida e taxas maiores, o pagamento de juros tem ocupado um espaço relevante no orçamento. Em 2024, pela primeira vez na história, os EUA devem gastar mais com juros do que com defesa militar.
O quadro não é bom. Recentemente, Nassim Taleb, um renomado estudioso de eventos de risco na economia, reforçou que existe a possibilidade de os Estados Unidos terem uma “espiral da dívida”, dado o potencial de o problema se retroalimentar.
– Consequências globais
A preocupação entre economistas é crescente. O ex-secretário do Tesouro americano, Robert Rubin, afirmou que as discussões sobre a redução do endividamento estão “divididas politicamente entre republicanos, que se recusam a aumentar impostos, e democratas, que não vão abrir mão de alguns gastos”.
Ele lembrou que essa perspectiva preocupante já está se traduzindo em um custo maior dos títulos longos nos Estados Unidos.
Ou seja: os investidores já estão cobrando juros mais altos para emprestar ao governo americano, vislumbrando os riscos maiores decorrentes do crescimento da dívida nos próximos anos.
O retorno prometido nos títulos americanos com vencimento em 10, 20 e 30 anos mais do que dobrou desde 2020 (partiu de pouco mais de 1% para mais de 4%), resultado, principalmente, da alta da taxa básica de juros e, em menor grau, da piora na percepção de risco pelos investidores.
Uma vez que o mercado americano é o mais relevante globalmente, juros mais altos nos EUA podem “contaminar” outros países (e ativos financeiros). O risco é de um aumento no custo do endividamento para governos e empresas. Por isso, não há dúvidas que o problema fiscal dos EUA estará no radar de investidores e governantes mundo afora nos próximos anos.

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